Conversações
YURI TURBAE Artigo

Kafka e a Liberdade

 

Entre o Anti-Édipo (1972) e Mil Platôs (1980), Deleuze e Guattari publicam Kafka: por uma literatura menor (1975). Este livro, que induz o curioso acreditar que seus autores estão empenhados em propor uma interpretação sobre a obra do escritor Franz Kafka, revela, de outro modo, um projeto filosófico - mais ambicioso - de revisão aos fundamentos do marxismo, do estruturalismo e da psicanálise, teorias dominantes nas décadas de 60 e 70. Um inequívoco manifesto contra a hermenêutica; Nós não interpretamos[1].

Seus autores apresentam e partem da análise do conceito de rizoma que, se opondo ao método cartesiano de busca pela raiz da verdade, indagam e respondem logo no início do livro: Como entrar na obra de Kafka? É um rizoma, é uma toca. Um rizoma - diferente das raízes profundas das árvores - não tem começo nem fim e está sempre no meio, como a grama que cresce lateralmente ocupando as superfícies. A filosofia, segundo Deleuze e Guattari, é criação de conceitos, pensar/fazer o novo, o múltiplo, a diferença, fora dos modelos lineares e hierarquizados oriundos da imagem moral do pensamento, onde ela – a filosofia – tem como pressuposto implícito uma imagem do pensamento, pré-filosófica e natural, tirada do elemento puro do senso comum. Segundo esta imagem, o pensamento está em afinidade com o verdadeiro, possui formalmente o verdadeiro e quer materialmente o verdadeiro. E é sobre esta imagem que cada um sabe, que presume que cada um saiba o que significa pensar. Pouco importa, então, que a filosofia comece pelo objeto ou pelo sujeito, pelo ser ou pelo ente, enquanto o pensamento permanecer submetido a esta imagem que já prejulga tudo, tanto a distribuição do objeto e do sujeito quanto do ser e do ente[2]. É essa experiência rizomática de entradas múltiplas que o leitor de Kafka é provocado, sem “o” caminho e nem “o” método a ser obedecido e percorrido, pois não há sentido a ser revelado ou verdade a ser alcançada. Como dizem Deleuze e Guattari no intuito de demonstrarem o devir filosófico que os atravessa; cada platô pode ser lido em qualquer posição e posto em relação com qualquer outro[3].

Assim; como entrar na obra de Kafka? Por qualquer parte, nenhuma vale mais que a outra. O princípio das entradas múltiplas impede, sozinho, a entrada do inimigo, o Significante, e as tentativas para interpretar uma obra que apenas se propõe, de fato, à experimentação. Deleuze e Guattari nomeiam, portanto, o inimigo – o Significante - numa crítica ao estruturalismo linguístico de Saussure, ou seja, na noção que os signos são compostos de significante e significado. O estruturalismo é uma corrente da linguística e das ciências humanas, que advogam a ideia que as coisas e os diversos tipos de signos se distribuem no interior de uma estrutura. O inconsciente é uma estrutura (Lacan), que as sociedades são formadas em estruturas de parentesco com tabu de incesto (Levi Strauss) e, que a linguagem se manifesta numa estrutura de significante-significado (Sausurre), ou seja, as teorias de matriz estruturalista consideram que o homem deve ser compreendido e interpretado com base numa estrutura que lhe é anterior. Deleuze e Guattari, operam uma intervenção cirúrgica neste modelo de pensar e fazer filosofia e, logo, de como se pensa o homem(antropologia), como se produz sua vida interior (psicanálise) e, como o homem, age e se relaciona com o mundo (ética e política).

Para entrar na obra de Kafka, os autores escolhem uma entrada modesta, a do Castelo, na sala de pousada onde K descobre o retrato de um porteiro com a cabeça curvada, com o queixo afundado no peito (...) A entrada que escolhemos não está somente, como era de se esperar ,pela conexão de duas formas relativamente independentes, a forma de conteúdo “cabeça -curvada”, a forma de expressão “ retrato-foto” que se reúnem no começo do Castelo[4]. Destarte, forma de conteúdo, forma de expressão e matéria não formada de expressão são conceitos que os autores utilizam quando entram na obra de Kafka, como um rizoma, e não como uma estrutura entre significantes e significados. O som de que fala Kafka é um som musical, articulado e formado (uma música, um assobio), mas também outro tipo de som, uma pura matéria sonora[5]: gritos, tosses, sons brutos, o som desterritorializado não é da mesma natureza da foto e não estão no mesmo nível, não há correspondência entre os estratos desses dois signos. O som desterritorializado é uma matéria não formada de expressão, um novo estrato do signo, a matéria que abala a estratificação saussuriana; no som, só a intensidade conta, geralmente monótona, sempre assignificante[6].

O signo, portanto, não está mais refém ao modelo de Saussure para tornar-se máquina; entrar, sair da máquina, estar na máquina, percorrê-la aproximar-se dela, ainda faz parte da máquina: são os estados do desejo, independentemente de toda interpretação[7]. Não se trata de interpretar, mas de percorrer o rizoma, a obra, e encontrar as máquinas de Kafka. Os autores opõem interpretação e significância à experimentação de Kafka, sendo uma alternativa, que nem interpreta e nem atribui significado, mas que experimenta a obra fazendo o mapa do rizoma; encontrar um mundo de intensidades puras em que todas as formas se desfazem, todas as significações também, significantes e significados, em proveito de uma matéria não formada, de fluxos desterritorializados, de signos assignificantes[8]. Este percurso rizomático na obra de Kafka, este devir desterritorializado se opõe ao Significante e ao modelo identitário – homem, branco, hetero, macho[9]....-, criando linhas de fuga e traindo as potências fixas, as significações dominantes, a ordem estabelecida e aos cânones da literatura maior que avalia e homogeniza. Literatura menor é se desviar do modelo teórico e político contido nas línguas maiores, a exemplo do próprio Kafka que sendo Judeu tcheco, escrevia em alemão, criando uma língua menor e uma máquina de guerra contra o alemão, lhe conferindo um tratamento menor, intensivo à língua, fazendo escapar do sistema dominante, desterritorializando a língua maior num devir revolucionário e político da língua menor. O diagnóstico, na obra de Kafka, de um futuro movido pela burocracia e pelo fascismo, um mundo transtornado, onde tudo racha e estala como no equipamento de um veleiro destroçado[10], nos provoca a pensar numa Linha de fuga não destinada aos estatutos da liberdade civil, jurídica ou existencial; o problema; de modo algum ser livre, mas encontrar uma saída, ou bem uma entrada (...) a maneira pela qual os homens são eles mesmos peças da máquina, a posição do desejo relativamente a ela[11], mas à experimentação de uma língua sem interpretação e significância,  na criação da língua ao povo menor do porvir; Kafka apresenta uma literatura como a enunciação coletiva de um povo menor que só encontra expressão no escritor ou através dele[12].



[1] DELEUZE, Gilles. GUATTARI, Felix. Kafka: Por Uma Lietratura Menor. Ed. Autentica, p.10.

[2] DELEUZE, Gilles. Diferença e Repetição. Ed. Graal, p.192.

[3] DELEUZE, Gilles. GUATTARI, Felix. Mil Platôs 1. Ed. 34, p. 44.

[4] DELEUZE, Gilles. GUATTARI, Felix. Kafka: Por Uma Literatura Menor. Ed. Autentica, p.10.

[5] DELEUZE, Gilles. GUATTARI, Felix. Kafka: Por Uma Literatura Menor. Ed. Autentica, p.13.

[6] DELEUZE, Gilles. GUATTARI, Felix. Kafka: Por Uma Literatura Menor. Ed. Autentica, p.14.

[7] DELEUZE, Gilles. GUATTARI, Felix. Kafka: Por Uma Literatura Menor. Ed. Autentica, p.17.

[8] DELEUZE, Gilles. GUATTARI, Felix. Kafka: Por Uma Literatura Menor. Ed. Autentica, p.26.

[9] “A vergonha de ser um homem; haverá razão melhor para escrever”. DELEUZE, Gilles. Crítica e Clínica. Ed. 34, p.11.

[10] Certa feita, indagado por um jovem interlocutor se vivíamos num mundo destruído, Kafka respondeu: “Não vivemos num mundo destruído, vivemos num mundo transtornado. Tudo racha e estala como no equipamento de um veleiro destroçado”. GUATTARI, Felix. A Máquina Kafka. Ed. N-1.

[11] DELEUZE, Gilles. GUATTARI, Felix. Kafka: Por Uma Literatura Menor. Ed. Autentica, p.17.

[12] DELEUZE, Gilles. Crítica e Clínica. Ed. 34, p.14.


Yuri Turbae
07/03/2026
5 min de leitura
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